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imagem: chacomcupcakes

Imagina uma senhorinha simpática, cheia de energia e com rodinhas nos pés, que não conta a idade porque tem medo do famoso pré-conceito, mas que deixa claro que energia não falta! Lembra que falamos da aparência no texto “A Muralha”? Pois é, a lista vai longe e contar a idade, segundo ela mesma, pode desaboná-la em seu trabalho. Pasmem costureira de roupas para noivas, formaturas e aniversários de 15 anos. Trabalha sem parar.

“Vem passar uns dias em casa”, digo quando conversamos ao telefone. Imagine!!!! Responde. Tenho o vestido da noiva, da mãe da noiva e da daminha de honra para fazer! Quer ir comigo para São Paulo? Retruca. Preciso comprar os tecidos e quero te mostrar umas “lujinhas” que descobri…

Fui… Buzão de comerciante com regras de conduta, horários rígidos e cafezinho de manhã e à tarde. O taxista, já conhecido, é sempre mimado com a melhor paçoca encontrada durante a viagem. Leva-nos até o ponto de onde o ônibus sai e seguimos madrugada a fora. Ela, já acostumada com o ritmo, dorme tranquilamente, sabe que precisará de toda a energia disponível. Eu? Onde ponho as pernas compridas que não se acomodam em posição nenhuma? Para cima, graças aos céus o alongamento é bom. Cômica visão para todo o resto do ônibus, porque a dona das rodinhas nos pés exige o primeiro lugar, bem lá no gargarejo mesmo.

Das mais antigas frequentadoras dessa viagem e detentora de alguns privilégios, cumprimenta todos os uniformizados responsáveis com beijos e abraços e eu, honrada por tabela, agradeço pelas gentilezas e simpatias por estar com a senhorinha mais simpática do ônibus.

O vinhozinho, disfarçado de chá, ajuda na soneca necessária diz, e abre um potinho de vidro que parece de papinha de nenê. Me oferece, e aí de mim se não tomar. Se não dormir é porque não tomou o “chá”! Vira a reza do resto da viagem. E a perna, o chá encolhe?

Duas da manhã e vamos à primeira caminhada pelos arredores. Duas marinheiras de primeira viagem (aêh Marli e Rose) querem conhecer a simpatia (ou falta de) dos chineses comerciantes, e às cinco da manhã se convencem de que é hora de um descanso, afinal o dia nem começou!! De volta ao ônibus e sem o chacoalho da estrada, consigo tirar um soninho. Mais por cansaço que por facilidade, por que a perna continua em desavença com o espaço entre o banco e o vidro do ônibus.

Seis horas da manhã. Engata primeira e segue em frente. Vira rua, segue em frente, pega táxi. Tá cansada? Quer dar uma paradinha? Pergunta para as moçoilas empolgadas e esbaforidas de baixo de um sol de pelar o coco. Naaaaão, respondemos em uníssono, mais em prol do desejo de ver tudo o que queremos, do que realmente por estar com o mesmo pique que ela.

No caminho, um taxista largado dentro do único carro do ponto, com a porta aberta e as pernas para fora chama a atenção de nossa guia. Olha só, é meu amiguinho taxista! Comenta animada. Eu, cometendo o erro de achar que era confusão da parte dela, engulo o péssimo exemplo de subestimá-la, ao ouvir o cidadão sair de dentro do carro, entre surpreso e animado com o encontro e dizer: Ôh!!! A quanto tempo!!!! Como vai a senhora? Se precisar estou por aqui!

E depois dessa… parei para pensar, respirei fundo e recoloquei minha confiança sobre ela no lugar devido. Que o resto do mundo tenha preconceito sobre sua idade é uma coisa, mas eu? Dei-me um puxão de orelha e segui em frente. Errar só é um ganho se o aprendizado acontece de alguma maneira. Aprendi, espero!

E os cumprimentos continuam. Ela conhece todos os antigos lojistas e as gerações seguintes. Sabe quem trabalhou onde e quem, se aproveitando da experiência adquirida, abriu seu próprio negócio no ramo. Lojas novas não primam pelo atendimento acolhedor e cheio de histórias, são engolidoras de consumidores com seus produtos chineses baratos que, por falta de opção nesse país abarrotado de impostos, obriga-nos a comprar onde cabe no bolso.

A caminhada continua um pouco mais e então ouço: Tá passando bem querida? Aiaiai, respondo. Vem, vou deixar vocês no café da minha amiguinha que tem uma quiche deliciosa, fala dando uma piscadinha marota. Fui. Fiquei uns quinze minutos sentada bebericando um chá gelado e tentando compreender de onde vem tanta energia e disposição. Eu ali, arriada, enquanto ela dava um “pulinho” até outra rua para comprar aviamentos. E você ainda tem dúvidas sobre o significado de envelhecer? Alguém segura a danada? Pôs-me sentada na lanchonete, mas não parou nem para bater papo com a amiga dona do café. Apresentou-me e picou a mula!

As rodinhas nos pés são aquisições cultivadas durante a vida. Sempre trabalhando e muito ativa, conhece São Paulo a mais tempo do que existo e vale o mesmo para os passeios ao “Parisguay”, como ela mesma chama. Mas, essa é outra história.

Quantas vezes já ouvi que velhice é questão de estado de espírito! Se eu chegar na idade dela, com a metade dessa disposição, estou mais que satisfeita. E tem gente que não entende que idade não define ninguém, a realidade é que são apenas rugas a mais e experiência de vida suficiente para mudar o jeito de ver e viver a vida.

Quer aprender a viver a vida do melhor jeito? Arruma uma avozinha como essa! Ela pode ser a avó de uma amiga ou a bisa da filha de alguém e é fácil de reconhecer. Olhos espertos, mesmo que pareçam cansados, agilidade comedida, mas constante, bom humor com suas próprias limitações e muita criatividade para continuar fazendo o que sempre fez, sem depender de ninguém. Porque a danada de rodinha nos pés e disposição de sobra já é minha desde que nasci!!! Divido com as netas que ela mesma adota por afinidade e carinho e que não são poucas, afinal… quem é que resiste?

E para fechar com chave de ouro, uma frase de autoria da própria: “Velho não tem que ficar jogado num canto!!! Levanta!!! Vai viver!!!!

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Nota: O texto que vocês acabaram de ler está pronto desde o ano passado. Vocês lembram que comentei o quanto foi lento o processo de montagem da nova versão do blog, e passei mais de um ano cultivando minha paciência (leia aqui)? Pois é, esse texto, entre outros, fez parte do processo de espera. Era o que eu podia fazer: escrever. O resto estava fora do meu alcance. Eles foram escritos numa determinada ordem que eu quis manter, até então. Hoje, decidi atropelar o calendário e postar o “Rodinha nos pés” como uma homenagem. Meu jeitinho de fazer as honras a uma avozinha modernosa e muito espevitada, que sem aviso prévio, foi morar com as estrelas.

Foi o meu jeito de contar para vocês um pedacinho de nossos momentos juntas, um téquinho de tempo que descreve bem quem ela era. Gente, essa avozinha, aos 88 anos, fez sua passagem para o outro plano dia 17 de março; alguns dias atrás. Doeu muito para quem ficou, mas ela foi do jeito que queria; enquanto tirava o cochilo da tarde. Como ouvi de algumas pessoas: foi como uma lady, uma diva, como se tivesse marcado hora. Dormindo e sem deixar nenhuma noiva ou debutante na mão, todos os vestidos haviam sido entregues.

O susto é o que mais dói e deixa a sensação de que faltou a última palavra, o último abraço, mais uma viagem ou outra semana na casa dela. Dói mesmo. Fico pensando em como vivi a minha vida até agora, se eu estaria pronta para deixá-la sem a sensação de que não fiz tudo… Não sei não! Ela viveu mesmo. Conquistou um batalhão de amigos e pessoas queridas, conhecia um mundaréu de gente, várias gerações de uma mesma família e tinha muitas histórias para contar. Ganhou muitos filhos e filhas, netos e netas por adoção espontânea.

Quem nesse mundo conhece alguém que chegou aos 88 anos super ativa, lúcida e saudável? Que viveu 88 anos à risca seus três pilares de vida?

– Trabalhar (muito e com muita dedicação)

– Comer bem (era natureba e cuidava da saúde)

– E viajar muuuuuuitooooo.

Eu só conheci ela!

Dizia: “Minha querida, todos os dias agradeço a Deus e peço só uma coisa: Saúde. Porque com saúde, “nóis resorve” o resto”!!!

Hoje, ainda dá uns cinco minutos de deprê quando lembro que ela não vai mais me contar, por telefone, que fez sua salada preferida de frango, ervilhas frescas, maçã, passas e que seu estoque de vinho estava acabando, “preciso ir pro Paragua de novo”, dizia; “vamu?” e me perguntava se eu queria um pouco (da salada); eu respondia: “quero… manda…rsrs”.

E esse vazio maluco que se expande até tirar lágrimas dos olhos e faz pensar: podia ter demorado mais para acontecer, né!!!??…

Sabe, acredito sim na continuidade da vida, mas nada impede que a gente sinta saudades, e essa dita cuja dói que é uma coisa! O que quero mesmo agora, além de parar de vazar pelos olhos (antes que eu vire uma ameixa) é pensar nas coisas que aprendi com ela, ou melhor, pensar naquilo que ela realmente sabia fazer: VIVER! Genteee, como é difícil isso! Essa minha vidinha é tão branco e preto perto da vida que ela cultivava!!!!

A missão do momento é encontrar um jeito de contar para a bisneta pois, sempre que estamos juntos, vem a pergunta: Cadê a bisa? Então… missão de pai e mãe! E a bisa vai mesmo virar uma estrelinha no céu!

Amores… apesar do nó na garganta, eu só tenho a agradecer. Tive uma avó que viveu 88 anos. Como a ampola da vida tem limite para todos, a dela terminou de uma maneira tranquila e é o que importa. Eu pude viver momentos especiais (né não Gabi, Marli, Rose e Tia Neiva?) e espero poder continuar contando sobre eles aqui, com muito humor e carinho, porque essa avó com rodinhas nos pés tem morada definitiva nas lembranças e no coração dessa neta, que adora contar um causo e tem um orgulho enorme dessa família: pai, mãe, irmão, cunhada, sobrinha, tias(os), primas(os) e de todos os quatro avós que já moram no céu. E olha que tem coisa pra contar, hein!!!

E para encerrar a postagem de hoje: viva da melhor maneira possível. Pare de deixar as coisas para depois! Sei que a vida é corrida, e às vezes não tem jeito, então, deixar para depois só vale se não for por preguiça, porque preguiça estava fora da lista de coisas boas da D. Nilda, e ela sabia o que era bom!!!

Se proponha a ajudar quem precisa, não espere que te peçam, você conhece as pessoas que te rodeiam e quando se cultiva a convivência, se conhece também as necessidades.

Ficam aí algumas diquinhas dela para vocês!!! E que Deus abençoe mais essa estrela que ascende no céu para brilhar. As palavras do momento? Amor, saudades e aprendizado.

Beijos e obrigada!

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