29
fev
2016

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Um dia uma criança, hoje um passado de lembranças embaçadas, mas vivas e pulsantes de amores. Amores verdadeiros, de alma, coração e encanto. Avós, amores eternos. Lembranças alvoroçadas, tamanha lista de boas coisas para se lembrar. Detalhes escapam, mas o coração não precisa de descrições minuciosas para sentir. Basta o que o arquivo da vida libera.

Uma prova de fogo emocional. Primeiro a casa de uma avó e depois da outra. Uma vazia, abandonada e a outra intacta. Nenhuma delas facilitou a minha vida. Respirar fundo, controlar as lágrimas… foi só o que consegui pensar para não desabar.

Entro num quarto e o cheiro da minha infância vem sem dó, apesar da casa estar vazia. Vó, você está por aqui? Com certeza, dentro do meu coração e incrustada na minha alma. Respira! Uma, duas, três vezes e controle-se, ninguém mais precisa chorar com você. Divido apenas a emoção da lembrança, a saudade eu guardo lá no cantinho de mim.

Quantas vezes acordei com o “conversê” da família no quintal. Debaixo da árvore, sentados, batendo papo, me recebiam animados. Eu de cara amassada e sorriso de satisfação infantil pela melhor das recepções. Ai que tempo bom, inocente e verdadeiro. A árvore, testemunha silenciosa dos meus momentos felizes, ficou lá, morando sozinha, mais do que deveria. Linda e dona das minhas lembranças.

Olhei para cima e fui incapaz de pensar, apenas senti o quanto estava sendo acolhida e abraçada. Olhei em volta, o piso engolido pelo mato. Apesar de intruso; gentil, surgindo aqui e ali em tufos, como a fazer companhia a irmã mais velha, a árvore.

Por favor, não cortem a árvore! Me dói o coração só de pensar!

E a vizinha tenta me fazer entender que, na prática, a árvore era um problema. Nem tive paciência de escutar. Para mim, na prática, essa árvore faz parte da minha história e de como eu vejo e sinto esta casa. Mas vai fazer um ser desprovido de apego emocional entender!

A árvore e a casa: acolhimento, proteção, companhia. Uma sem a outra, a outra se a uma… não combina, destoa. Pedi: Pelo menos não cortem toda, não quero ver essa beleza e altivez resumidas a um conjunto de tocos tristes e dilacerados. Fui ouvida. A beleza se foi, os trinta e cinco anos também, restaram tocos e pequenos galhos. Graças aos céus, ainda tem um pouco de verde. Perdão. Foi só o que pude dizer. Nossa história foi interrompida. Eu, apenas cinco anos mais velha que você, e você tão gigantescamente linda. Tentei ser sua voz, mas não fui capaz de impedir que parte de você se fosse.

A casa continua lá, esperando seu futuro. A vontade do lado de cá é preservar, a vontade do lado de lá é vender para lucrar. E assim, caminhamos. A árvore e a casa, sofridas pelo tempo, aguardam pacientemente por seus destinos e eu…

Entrei na casa intacta. A casa da avó que virou estrela há menos tempo (leia aqui). Cheia de plantas bem cuidadas, apesar da ausência da dona da casa. Carinho é assim, preserva. Caminhei cautelosamente, minha primeira visita depois de sua mudança para o lado de lá. Difícil!! Sala de costura vazia, cada cadeira em seu lugar e nenhuma bagunça na mesa de trabalho. A casa limpa e organizada, mas vazia de tudo, do mais importante, a dona do pedaço.

É fato, a galera preferida da minha torcida particular está em outras paragens. Uma turma da pesada que faz uma falta tremenda.

Fiquei olhando para cada pedaço daquele lugar. Não quero abrir mão de nada que tenha o que dizer. Avô serralheiro e bordadeiro e avó costureira, quanta coisa linda para virar história de família. Para quem nunca teve raízes, mudando de lá para cá, objetos e móveis são âncoras e eu quero garantir as minhas, as nossas. O mais difícil? Descaracterizar a casa. Cada coisa que muda de lugar ou sai de lá, é como se desvincular dos laços… difííícil.

E aí, vamos saindo. Está na hora de pegar a estrada. Na frente da casa, outra árvore. A pitangueira, essa provavelmente com boa audição. Muitas conversas e elogios da dona da casa e ela frondosa e bonita. Árvore pequena, mas cheia de frutas, uma festa para os passarinhos. Nesse dia? Nada de pitangas cutucadas, uma mais linda que a outra. Elogiei, sugeri que minha mãe aproveitasse, pegamos algumas poucas e lindas pitangas, segundo ela, deliciosas também. Comentamos o quanto minha avó gostava da pitangueira e voltamos para casa.

No dia seguinte o telefone toca. Um acidente com a pitangueira. Despedimos-nos sem saber. Um carro e ponto, nada do que possa ser dito ou justificado mudará o fato da pitangueira ter sido atropelada. As árvores da minha vida se foram, ou parte delas. Quem sabe os brotos que possivelmente surjam, possam continuar contando histórias? As minhas dependerão apenas dos meus neurônios. Mas para garantir, escrevo o que o coração manda.

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